Sem consulta não tem assistência. Será?


Hoje de manhã um irmão de fé perguntou:
– Se não tem consulta no candomblé por que alguém ficaria na assistência?
Boa pergunta, não é mesmo?

Por que alguém ficaria ali sentado por duas horas assistindo pessoas incorporando divindades?

A resposta veio à minha mente de uma forma muito clara e me impulsionou a escrever.

Vejam, irmãos, eu estudei em colégio católico, o colégio Santa Maria aqui em minha cidade, Praia Grande. Sim, eu moro mal. Tudo bem. Nessa época, obviamente, participei de muitas missas e não me lembro do padre Paulo prestar consulta lá na igreja Santo Antônio. Até mesmo no confessionário não havia nenhum conselho. Era apenas um número de rezas e “vai com Deus, meu filho”. Lembro também que as missas tinham muito mais consulentes” do que as giras de meu terreiro ou de qualquer terreiro que eu tenha conhecido.

Também cheguei a frequentar alguns cultos evangélicos. Há muito mais “consulentes” por lá do que as giras de Umbanda. Porém, não há nenhum tipo de consulta, apesar de incorporarem o espírito santo e girarem igualzinho aos caboclos incorporados nos cavalos de Umbanda.

Conversando com um amigo muçulmano fiquei sabendo também que não há consulta durante o culto muçulmano. Os muçulmanos vão à mesquita não só para cultuar e rezar, mas também para aprender sobre o islã e conviver com outros muçulmanos.

Nós, umbandistas, erroneamente confundimos gira com “a única prática religiosa que existe na Umbanda”. Não é assim que fazemos comumente?

Irmão, acompanhe meu raciocínio e veja se faz sentido. Normalmente não faz sentido algum, mas dê uma chance a mim desta vez (rsrsrsrs). Um terreiro de Umbanda é formado por uma comunidade religiosa baseada na unidade familiar.

O dirigente é chamado de pai, babá (pai em ioruba) ou padrinho. Os demais integrantes são chamados de filhos. É dever do pai cuidar de seus filhos ensinando-lhes a doutrina e a ética de sua religião para assim, tornarem-se pessoas capazes de encarar o mundo que os rodeia na fase adulta de sua vida espiritual.

Esta união é chamada de corrente mediúnica. Esta família pratica rituais religiosos para seu próprio fortalecimento. Contudo, em um dia específico, abre suas portas para ajudar a comunidade que lhe cerca. Abre suas portas para ajudar aqueles que necessitam de auxílio espiritual e não fazem parte da família.

Percebem que a gira aberta não é o objetivo principal de um terreiro? Entendem porque não faz sentido para mim colocar a gira como função principal de um terreiro? Porém, mesmo assim, há terreiros que vivem somente para a gira de consulta.

As igrejas evangélicas têm mil pessoas por culto e, dessas, muito mais do que a metade oferta 10% de seu salário à igreja. Não questionarei o destino do dinheiro ou se é certo ou errado. É uma prática religiosa e devemos respeitá-la.

Não é porque existem policiais corruptos que todos os policiais são corruptos.

Enfim, existem muito mais pessoas que procuram Deus em cultos evangélicos, onde não tem consulta direta, do que nos terreiros. Em uma missa católica do padre Marcelo há muito mais pessoas do que em qualquer terreiro que já fui ou conheço. Ninguém passa por nenhuma consulta com o padre Marcelo. As pessoas não vão até lá para falar com o padre Marcelo. Vão lá para falar com Deus.

Pergunto. As pessoas vão até o seu terreiro para falar com quem? Com a Pombagira, com o caboclo, com o preto-velho, com Deus (Olorum, Tupã ou Zambi)? Sua resposta definirá o tipo de consulentes que você atrai e qual a transformação que está operando dentro de sua comunidade, seja externa ou sobre sua família espiritual.

Existe a possibilidade de uma pessoa que frequenta seu terreiro encontrar Deus por lá de alguma forma? Alguém vai para lá porque encontra o Criador em suas giras?

Não estou dizendo que você gira errado ou certo e sim, fazer você pensar a respeito e responder a seguinte pergunta feita por um irmão de fé:

– Por que alguém vai a um terreiro de candomblé se lá não tem consulta?

– Para beber na fonte viva de Deus.

– Como eles fazem isso, Adérito?

– Através dos Orixás, incorporados em seus cavalos, ou seja, pessoas preparadas para recebe-los e transmitir o poder e a palavra de Deus por meio da incorporação sem sequer dizer uma só palavra.

Uma boa semana a todos. Axé!